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As décadas de Cinema a navegar neste rio...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.08.10

 

Resolvi revisitar os filmes que aqui navegam, arrumando-os nas décadas respectivas. Para esse efeito, saltei um pormenor matemático que poucos valorizam (veja-se a passagem do milénio em que se festejou de 1999 para 2000, quando deveria ter sido apenas no ano seguinte, ups!) e que é este: uma década inicia-se no ano 1 e termina no final do ano 0, certo? Pois bem, para não criar nenhuma confusão, considerei os filmes que saíram exactamente em 1940 da década de 40 (ex.: Vinhas da Ira) e em 1950 da década de 50 (ex.: Tea for Two) e em 1960 da década de 60 (ex.: Wild River). Assim não há confusões.

 

Depois de contabilizados, cheguei à conclusão que a década mais representada neste rio é, afinal, aquela em que estamos (26 filmes a navegar) logo seguida da década de 50 (com 24). Até eu fiquei surpreendida...

É natural que aqui estejam mais filmes recentes, afinal foram filmes que aluguei no Clube Vídeo (entretanto extinto) ou que vi num dos TVCine ou no canal Hollywood.

De todos estes filmes, aqueles que melhor reflectem a nossa década actual são, a meu ver, Down in the Valley, Little Miss Sunshine, Saraband e War Inc.

 

O que me surpreendeu foi a quantidade de filmes dos anos 50 que aqui coloquei a navegar, quase todos eles obras-primas, em termos de linguagem do cinema, do cinema-arte. Com a atmosfera... essa atmosfera que é tão difícil captar...

Que dizer dessa atmosfera em O Dia em que a Terra Parou ou em All that Heaven Allows? Ou da força da natureza em Stromboli, Viaggo in Italia, River of no Return e Suddenly, Last Summer? Ou da sensualidade em Picnic, On the Waterfront ou Rear Window? Ou da poesia de The Long, Hot Summer, Morangos Silvestres, The Red Badge of Courage?

E ainda uma descoberta, The Hanging Tree, pouco conhecido, um exercício poético e belíssimo. E um dos filmes que já vi mais vezes, vá-se lá saber porquê, The Naked Spur. E o único Nicholas Ray, um muito branco e comovente On Dangerous Ground. Assim como o único Orson Welles, um brilhante e ousado Touch of Evil.

 

 

Outra surpresa: a década de 90 vem a seguir, com 20 filmes a navegar... De novo o factor Clube Vídeo também aqui pesou, assim como a televisão. Nenhum destes filmes se pode colocar no plano dos anteriores, esta é a minha perspectiva, mas há um ou outro, Ed Wood por exemplo, e The Remains of the Day, é consensual. Já The Postman e Waterworld, por exemplo, estou a ver que a escolha é polémica... Grand Canyon iniciou um filão de um olhar poético sobre a vida urbana, a sua violência, a sua incapacidade de comunicação. Na altura, surgiu como uma pedrada no charco, foi muito inovador.

 

A seguir, os anos 80. Com 15 filmes, todos eles magníficos, cada um no seu género. Foi uma década inspirada, de transição. Onírica e poética, depois do realismo brutal da década de 70. Mas esta é a minha visão muito pessoal.

A ficção científica, não reduzida à tecnologia, mas quase em parábolas poéticas, em E.T.e Blade Runner. As adaptações literárias perfeitas, em Stand by me, A festa de Babette, O Império do Sol, Cannery Row, A passage to India e A Room with a View.

 

Depois, com 11 filmes, os anos 40, a década preferida de um amável Viajante que me tem desafiado a trazer aqui mais filmes. Faltam aqui muitos filmes dos anos 40, sem dúvida alguma...

Dois William Wyler e ambos perfeitos: The Little Foxes e The Best Years of Our Lives. Um John Ford, As Vinhas da Ira. Um David Lean, Breaf Encounter. Um Emeric Pressburger-Michael Powell, A Canterbury Tale. Um Capra, It's a Wonderful Life. E um Mankiewickz, The Ghost and Mrs. Muir. Destaco aqui também High Sierra, outra magnífica parábola (e já viram que eu adoro parábolas... além disso, é Humphrey Bogart e Ida Lupino e a despedida mais triste do cinema, a meu ver... naquela paragem de autocarro...)

 

Os anos 60 vêm logo logo a seguir com 9 filmes, e confesso!, a seguir à década de 50 é aquela com que mais me identifico... Talvez porque habitei esse tempo na minha infância. Conheci personagens assim. Assim como essa tranquilidade, entretanto perdida nas décadas seguintes. Claro que também havia constrangimentos de outra natureza, preconceitos vários, muros e fronteiras que tinham de se ultrapassar, mas a forma como isso foi conseguido destruiu o melhor dessas décadas, a meu ver, e já não estou a falar de cinema... Foi como um bulldozer a terraplanar silêncios, mãos dadas na obscuridade, cartas poéticas, tardes de verão à sombra de uma árvore, rios cintilantes à espera de um mergulho, olhares francos e ternos, esse tipo de coisas que eram essenciais... Bem, já estou a divagar...

Todos os filmes que aqui navegam trazem essa marca poética e essa atmosfera de que falei a propósito dos filmes dos anos 50... Wild River, magnífica parábola dos tempos actuais, do momento crítico, quando a natureza indomável se vê limitada ou condicionada pelo progresso. O desencanto, sempre presente: Rachel, Rachel, Baby the Rain must Fall... O preconceito: Guess who's coming to dinner e To Kill a Mockingbird.

 

Depois, vem a década de 70, com 7 filmes. Não foi uma década muito interessante para mim, em termos de Cinema. Foi no tempo das idas ao Cinema com mais frequência e o que vi soou-me a agressivo e brutal e quando não era agressivo ou brutal, era decadente e inconsequente. Essa tendência já se sentia nos filmes do final dos anos 60, mais sombrios e desencantados. Nos anos 80, como já disse aqui, tudo começou a melhorar, pelo menos na minha perspectiva pessoal.

Dois Spielberg, um Woody Allen e um Stanley Kubrick. Nada mal.

 

E, finalmente, a década de 30, com 5 filmes. Outra surpresa! Uma das décadas mais ricas e criativas, em todos os géneros, do drama à comédia, até na ficção científica, e como é possível que só tenha trazido 5 filmes, e quase todos do Capra? Tenho de tratar de procurar na memória aqueles filmes magníficos que ainda vi na televisão.

Todos eles obras-primas, mais uma vez. Mr. Smith Goes to Washington, It Happened One Night e Lost Horizon, do Capra. A Floresta Petrificada, outra magnífica parábola. E um palco para um quotidiano urbano em local de trabalho: The Shop Around The Corner.

 

 

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publicado às 16:25


3 comentários

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De Anónimo a 25.08.2010 às 01:04

Ana,

Olhando apenas para o cinema norte-americano, alguns filmes que a Ana deveria ter em conta em futuro posts:

"Double Indemnity" – 1944 (considerado por Woody Allen o melhor filme americano de sempre).

"The Postman Always Rings Twice" – 1946
"How Green Was My Valley" – 1941
"Laura" – 1944
"The Woman in The Window" – 1944
"Mildred Pierce" – 1945
"Scarlet Street" – 1945
"The Big Sleep" – 1946
"The Postman Always Rings Twice" – 1946
"My Darling Clementine" – 1946
"Out of The Past" – 1947 (um dos melhores filmes negros de sempre)

"Lady in the Lake" – 1947 (um filme delirante!)
"Sorry, Wrong Number" – 1948
"Criss Cross" – 1948

Claro, todos eles dos anos 40. É apenas uma lista entre muitos outros títulos dessa década, mas, tendo em conta as preferências da Ana, estes são mesmo imperdíveis.
Dariam páginas infindáveis de posts…e comentários.

Diogo

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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 26.08.2010 às 17:49

Diogo

Obrigada pelas sugestões (ou deveria antes dizer, desafios?) de filmes dos anos 40 para aqui colocar a navegar...

É verdade!, destacou aí dois ou três que me fascinaram! "Out of the Past", por exemplo. Interessante ter ido logo lembrar-se desse filme...

Já tenho aqui uma lista que me vai transportar de novo para lugares e atmosferas bem cinematográficos.
Ana

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De Anónimo a 25.08.2010 às 01:29

Ana,

Do Mankiewickz confesso que sou um apaixonado por essa obra prima do “The Ghost and Mrs. Muir”, o resto do Mankiewickz não me interessa mesmo nada. Considero-o um realizador menor.
(e sobre esse ghost e a Mrs. Muir há ainda muito a dizer!)

Há no entanto um outro filme dele, dessa década de 50 que a Ana tanto gosta, chamado “5 fingers” a não perder.
É um filme sobre o snobismo como forma de arte. O snobismo não é um conceito social ou não é “APENAS” um conceito ou expressão social. O snobismo, na sua essência, pode ser uma forma poética e individualmente radical de enfrentar o mundo contemporâneo. Uma forma superior e irónica de enfrentar (ou de superar) a violência a bestialidade e todas as formas de fanatismo.
“5 fingers” fala-nos disso. A não perder.

Diogo


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